quinta-feira, 18 de abril de 2013

Os 35 Melhores Filmes da Esquerda

170413 novecentoDiário Liberdade - [António Santos para o Diário Liberdadae] Cinema e socialismo foram colegas de escola no princípio do século XX. Às vezes juntos, cresceram, apaixonaram-se, magoaram-se, desiludiram-se e continuaram a aprender.

Esta lista, inevitavelmente incompleta e truncada de injustiças, resgata da História do Cinema as melhores e mais belas encarnações dos ideais da esquerda.
35º Capitalismo, uma História de Amor (Capitalism, a Love Story)
País: Estados Unidos da América
Ano: 2009
Realizador: Michael Moore
Esta história de amor é o retrato da crise do capitalismo a partir do seu próprio berço. De Michael Moore, também poderíamos incluir Sicko ou Bowling for Columbine, mas Capitalismo corresponde ao zénite da evolução ideológica do realizador norte-americano, não acabasse o filme ao som da Internacional. Mas sobretudo, o documentário perfaz a lista pelos relatos dramáticos dos trabalhadores que pagam na pele o preço do amor dos EUA pelo capitalismo.

34º As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1940
Realizador: John Ford
O clássico de Steinbeck encontra uma justa homenagem nesta adaptação de John Ford. As Vinhas da Ira conta a história de uma família de camponeses que, expulsa pelos latifundiários das terras onde viviam e trabalhavam, é forçada a uma longa viagem rumo à Califórnia em busca de trabalho. Pelo caminho, encontram a fome e a discriminação, mas também a solidariedade, a consciência de classe e a dignidade.

33º Sambizanga
País: Angola
Ano: 1973
Realizador: Sarah Maldoror
Sambizanga arruma com o mito do “brando colonialismo português” numa clara e inequívoca afirmação da estética e cultura africanas. Domingos, militante do MPLA, é sequestrado pela PIDE e torturado durante vários dias. Entretanto, a sua família procura-o desesperadamente entre o desespero do povo angolano. Filmado no Congo com guerrilheiros do MPLA e do PAIGC na maioria dos papéis e baseado na obra de José Luandino Vieira, Sambizanga é um dos mais poderosos filmes anti-coloniais de todo o continente africano.
32º Clube de Combate (Fight Club)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1999
Realizador: David Fincher
Quando o capitalismo não nos mata de fome, mata-nos de aborrecimento. O Narrador, magnificamente interpretado por Edward Norton, consome-se entre catálogos IKEA e a voragem da rotina. Alienado do seu próprio trabalho, da sociedade e de si próprio, conhece Tyler Durden um perigoso maníaco que pretender explodir o mundo financeiro.
Muita tinta já correu sobre o Clube de Combate, que tal como o livro homónimo, já foi acusado de proto-fascista, sexista e niilista. Mas como dizia Saramago, todas as histórias se podem contar de outra maneira.
31º Doutor Estranhoamor (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1964
Realizador: Stanley Kubrick
Poucas etiquetas políticas cabem na lapela de Kubrick mas Doutor Estranhoamor é em si mesmo, um manifesto político. Rodada no auge da guerra fria, quando a sombra de um holocausto nuclear pairava sobre as cabeças de toda a humanidade, esta sátira expõe ao ridículo a lógica anti-comunista da América do senador McCarthy. Curiosamente, 50 anos mais tarde, os EUA estão de novo no centro de uma escalada de provocações nucleares. A única diferença, é que ainda não acusaram os coreanos de querer envenenar o abastecimento de água dos EUA.

30º Machuca
País: Chile
Ano: 2004
Realizador: Andrés Wood
Chile, 1973. Dois rapazes são unidos pela amizade e separados pelas classes sociais. Este é um filme sobre a adolescência, com toda a esperança e violência que ela comporta e, por isso mesmo, a melhor lente sobre a História recente do Chile. Mas Machuca é muito mais do que uma rara janela para a experiência socialista de Allende e uma crítica à podridão da burguesia que engendrou Pinochet. É por direito, um dos melhores filmes chilenos alguma vez produzidos.

29º Inside Job - A Verdade da Crise (Inside Job)
País: Estados Unidos da América
Ano: 2010
Realizador: Charles Ferguson 
Inside Job - A Verdade da Crise, obra prima de Ferguson, é um documentário que todos deveríamos ver. Num momento em que os desejos e caprichos do Deus-Mercado são cada vez mais descritos como insondáveis e ininteligíveis pelos comuns mortais, este filme explica as origens da crise capitalista que hoje vivemos de uma forma brilhante. Ferguson entrevista os maiores responsáveis directos pela crise, encosta-os à parede e faz o nosso sangue ferver.
28º A Batalha do Chile (La Batalla de Chile)
País: Chile
Ano: 1978-1980
Realizador: Patricio Guzmán
A Batalha do Chile é justamente considerado o melhor documentário latino-americano de todos os tempos. Justamente. No total, são quatro horas e meia de História com H grande, centrada na luta dos trabalhadores, nas conquistas da sua revolução e na resistência ao fascismo. Mas nenhuma das três partes que compõem A Batalha do Chile são filmes de arquivo: tudo foi filmado no momento e no local. O operador de câmara Jorge Müller Silva foi sequestrado pela polícia de Pinochet durante as filmagens e é um dos 3000 chilenos que continuam desaparecidos.

27º Norma Rae
País: Estados Unidos da América
Ano: 1979
Realizador: Martin Ritt
Tal como todos na sua família e nesta pequena cidade da Carolina do Norte, Norma Rae (uma impecável Sally Field) trabalha na fábrica de algodão. Recebe o salário mínimo e parece condenada a aceitar todas as condições que o patrão lhe impõe. Até que um dia, chega Reuben Warshowsky (Ron Leibman), um sindicalista decidido a organizar os trabalhadores da fábrica. Baseado em factos reais, Norma Rae é uma homenagem despretensiosa à operária americana como ela é e à luta que tem em comum com os trabalhadores do mundo.

26º Cinco Dias, Cinco Noites
País: Portugal
Ano: 1996
Realizador: José Fonseca e Costa
José Fonseca e Costa consagrou-se neste filme como um dos mais competentes realizadores portugueses. Cinco Dias, Cinco Noites é uma espantosa e fidedigna viagem ao Portugal dos anos 40. Conta a viagem de um preso político evadido que procura cruzar a fronteira com a ajuda de um intratável “passador”. A antipatia entre os dois homens dá lugar a uma bela amizade nesta excelente adaptação ao cinema do romance homónimo de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal.
25º O Fim de São Petersburgo (Конец Санкт-Петербурга)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1927
Realizador: Vsevolod Pudovkin

Um camponês desempregado chega a São Petersburgo à procura de trabalho. Sem querer, acaba por denunciar um velho amigo à polícia, que o envia para a frente de batalha da I Guerra Mundial. O Fim de São Petersburgo é poesia celuloide em estado puro, 80 minutos de beleza intensa e golpes poderosos. É o irmão gémeo do famoso Outubro de Eisenstein mas ao contrário deste, que se centra nas massas, Pudovkin dedica-se ao indivíduo e à sua importância na revolução, sem nunca no entanto o demitir da sociedade, da sua classe e do seu partido.
24º Os Edukadores (Die Fetten Jahre sind Vorbe)
País: Alemanha e Áustria
Ano: 2004
Realizador: Hans Weingartner
Uma estudante universitária tem um pequeno acidente de carro. Até aqui tudo bem. Acontece que não tinha seguro. Menos bem. E a isto acresce que o tipo do carro da frente, não é nem mais nem menos que um dos maiores bilionários do país e que os danos provocados valem dezenas de milhares de euros. Condenada em tribunal a pagá-los por inteiro, a jovem é forçada a deixar os estudos e a aceitar empregos precários por salários de miséria. Mas quando não se tem nada, também não se tem nada a perder. Os Edukadores correspondem o terror dos capitalistas na mesma medida. Como? A) Entrar furtivamente nas mansões dos ricos B) Criar pirâmides com toda a mobília e alterar toda a configuração da casa. C) Deixar uma nota: “Os vossos dias de abastança acabaram”.

23º Os Santos Inocentes (Los Santos Inocentes)
País: Espanha
Ano: 1984
Realizador: Mario Camus
Ver Os Santos Inocentes é como entrar num museu cheio de Goyas. As cenas lúgubres, cinzentas e magistralmente bem compostas podem-nos fazer duvidar do século em que o filme tem lugar, mas esta família espanhola sobrevive sem água nem electricidade nos vizinhos anos 60. O arcaísmo do latifúndio como ele é: um sistema medieval onde os caprichos dos senhores valem mais que a vida dos camponese.; Mas até nesta enorme prisão a céu aberto que reduz mulheres e homens a cães de caça (literalmente), todas as criaturas têm um limite.
22º Queimada
País: Itália
Ano: 1969
Realizador: Gillo Pontecorvo 
Um provocador inglês enviado à ilha fictícia de Queimada para incitar uma revolta de escravos contra o colonialismo português. Os ingleses servem-se dos sentimentos independentistas dos escravos para se apropriarem eles próprios do comércio do açúcar, mas a revolta dos escravos ganha pernas próprias e prova-se difícil de controlar. Marlon Brando é irrepreensível no papel de William Walker, um cínico mercenário inglês que compreende demasiado bem a lógica do lucro e a desumanidade do colonialismo para lhes ser indiferente.
21º Matewan
País: Estados Unidos da América
Ano: 1987
Realizador: John Sayles
Este filme é uma refrescante surpresa de Hollywood, que com um elenco salpicado de estrelas (Chris Cooper, James Earl Jones, Mary McDonnell, etc.) e numa linguagem típica dos blockbusters, narra a Batalha de Matewan, na Virgína Ocidental, com acuidade histórica e destemido comprometimento político. O argumento centra-se na chegada de Joe Kenehan, sindicalista e comunista à pequena comunidade mineira de Matewan, onde se dará uma batalha de classes pela dignidade contra o racismo, o capitalismo e a exploração do homem pelo homem.

20º Também a Chuva (También la Lluvia)
País: Espanha, México, Bolívia e França
Ano: 2010
Realizador: Icíar Bollaín
Um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos, cheio de subtilezas e resultado da colaboração de pesos pesados da sétima arte como o guionista Paul Laverty e os actores Gael García Bernal e Luis Tosar. Com apurada sensibilidade, Icíar Bollaín apresenta-nos uma equipa de rodagem espanhola que ruma à Bolívia para, ao mais baixo preço, filmar um documentário sobre a chegada de Cristóvão Colombo à América. Paulatinamente, o guião do documentário, que narra a história do genocídio e resistência dos indígenas, inspira e reflecte uma luta de vida ou morte contra a privatização da água, em que os índigenas contratados como extras se decidem a ser, de uma vez por todas, protagonistas da sua própria História. Uma bela história, sobre um povo ajoelhado que aprende a caminhar.

19º Os Diários de Motocicleta (Diarios de motocicleta)
País: Argentina, Chile, EUA, Peru, França. Alemanha e Reino Unido
Ano: 1969
Realizador: Walter Salles
Baseado nos diários do Guerilheiro Heroico, este filme biográfico consegue a proeza rara de contar a travessia trans-americana do jovem Ernesto de acordo com a máxima do mesmo: duramente, mas sem perder a ternura. Produção internacional de uma rara beleza, Os Diários de Motocicleta mostram uma América explorada e ajoelhada, mas igualmente o profundo amor dos comunistas à humanidade, ao ponto de morrer por ela e também de nos fazer chorar.
18º A Greve (Стачка)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1925
Realizador: Sergei M. Eisenstein
A primeira longa-metragem de Eisenstein faz os filmes mudos coevos parecerem anémicos. A Greve é uma obra de arte tão original como arriscada, que define já a finura de Eisenstein e, por corolário lógico, a genética do cinema moderno. Ao contrário de muitos outros filmes mudos da época, os actores não precisam de exagerar as expressões faciais para compensar com histrionismo a incapacidade de falar. Eisentein consegue tudo por todos os meios. Através de colagens, ângulos de câmara loucos, rápidas sequências entrecortadas e efeitos especiais, ficamos a conhecer a miséria dos operários russos, as suas reivindicações, a sua corajosa luta e, por fim, a sua brutal supressão.

17º A Melhor Juventude (La meglio gioventù)
País: Itália
Ano: 2003
Realizador: Marco Tullio Giordana 
Seis horas de filme não é brincadeira. Mas em A Melhor Juventude não há nem um minuto em excesso e o resultado final prima pelo brilhante exercício de economia. É que Giordanna está a contar-nos a história de um grupo de amigos ao longo de 50 anos e qualquer grupo de amigos a sério tem muito que contar. As actuações são brilhantes e o argumento é tocante. Mas o que mais sobressai, é a honestidade com que se aborda a história recente de Itália, das lutas dos estudantes universitários às Brigadas Vermelhas até à diluição dos ideais socialistas. Um filme que todos deveriam conhecer.

16º Che
País: Espanha, França, EUA
Ano: 2008
Realizador: Steven Soderbergh
O Che dizia que numa revolução, se for verdadeira, ou se triunfa ou se morre. As duas partes deste filme revelam a crueza da guerra revolucionária, para lá de quaisquer fantasias esquerdistas. Benicio del Toro converte-se em Guevara com tanta arte que nada nas suas palavras, nos seus trejeitos ou mesmo na sua aparência física o denuncia. Che é uma sublime e original lição de humanidade, que salpica com generosidade e comunismo os mais ínfimos detalhes de uma guerra tão sangrenta e brutal como cada vez mais necessária.

15º Estado de Sítio (État de Siège)
País: França e Itália
Ano: 1972
Realizador: Costa-Gavras
Costa-Gavras foi um dos realizadores mais politicamente comprometidos do século passado. E também um dos melhores. Em Estado de Sítio, o génio grego explora as brutais consequências do imperialismo norte-americano nos regimes sul-americanos. Com Yves Montand e Renato Salvatori nos papéis principais, o filme segue o grupo de guerrilha urbana durante o sequestro e interrogatório de um dirigente da CIA. Baseado no sequestro de Dan Mitrioni pelos Tupamaros uruguaios, Estado de Sítio foi apedrejado pelos críticos de cinema dos EUA que o acusaram de propagandear mentiras sobre o envolvimento dos EUA na promoção de ditaduras na América do Sul. Um ano mais tarde, a CIA oferecia o Chile para abate a Pinochet.
14º Brisa de Mudança (The Wind that Shakes the Barley)
País: Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, França, Bélgica e Suíça
Ano: 2006
Realizador: Ken Loach
Da Irlanda à Colômbia, passando pelo País Basco ou pelo Vietname, há um sentimento que predispõe povos pacíficos a se levantarem em armas para matarem os seus irmãos. É do antiquíssimo sentimento de humilhação que trata este filme. É pesado, triste e duro de se ver, mas indispensável para quem pretender compreender a luta dos irlandeses pela liberdade. Com trabalhos de fotografia e direcção de primeira classe, Ken Loach traz-nos aos anos vinte do século XX irlandês, para conhecer o trágico percurso de dois irmãos no IRA.

13º Apocalyspe Now
País: Estados Unidos da América
Ano: 1979
Realizador: Francis Ford Coppola
Um dos clássicos do cinema americano e provavelmente a melhor adaptação ao cinema de qualquer livro. Baseado no Coração das Trevas de Joseph Conrad, Apocalypse Now substitui o colonialismo belga no Congo pelo imperialismo norte-americano no Vietname, denunciando a monstruosidade da guerra e a desumanização dos soldados. Fotografado com a mestria de Coppola, Apocalypse Now é uma poderosa metáfora sobre a natureza humana e o mais competente dos ensaios cinematográficos sobre a guerra.
12º Outubro (Октябрь (Десять дней, которые потрясли мир))
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1927
Realizador: Sergei M. Eisenstein
Estreado no quadro das comemorações do 10º aniversário da Revolução de Outubro, o filme Outubro é uma revolução em si próprio: a abordagem à teoria da montagem de Eisenstein desconstrói a formalidade narrativa do cinema convencional e introduz a edição e a pós-produção como meios de alcançar a dialética. Esteticamente tão arrojador como o período histórico que retrata, Outubro definiu para sempre o imaginário mundial da revolução socialista russa.

11º Eu Sou Cuba (Soy Cuba)
País: Cuba e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1964
Realizador: Mikhail Kalatozov
Eu sou Cuba é o impensável resultado da colaboração entre um poeta e um realizador soviéticos, e um escritor cubano, que contam a História de Cuba na primeira pessoa. Uma nação arrastada pelos rodapés de historiografias estrangeiras levanta-se do chão e consegue a verdadeira independência. Eu Sou Cuba é inacreditável, uma viagem sideral filmada num preto e branco belissimamente fotografado. Os ângulos de câmara são acrobáticos, os cortes são psicadélicos e a música é autenticamente cubana.

10º Reds
País: Estados Unidos da América
Ano: 1981
Realizador: Warren Beatty
Esta mega-produção de Hollywood entra no décimo lugar da lista pela porta grande da sétima arte. Não sei o que neste filme é mais apaixonante: as inspiradoras actuações de Jack Nicholson, Diane Keaton, Maureen Stapleton e, sobretudo Warren Beatty no papel de John Reed (o jornalista americano que no calor da Revolução de Outubro escreveu “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”)? Ou o brilhante guião que nos transporta aos loucos anos 20, às eternas discussões e contradições da esquerda e ao mais relevante acontecimento histórico do século XX? Ou as adoráveis entrevistas a uns improváveis e brilhantes velhinhos americanos?

9º Às Segundas ao Sol (Los Lunes al Sol)
País: Espanha
Ano: 2002
Realizador: Fernando León de Aranoa
Um monumento à classe operária como ela é e não como nós gostaríamos que ela fosse. A história dos operários navais de Vigo, na Galiza, a quem o capitalismo roubou o trabalho, a vida e a esperança mas nunca a dignidade. Um filme que só não fará chorar os ricos e os corações empedernidos que nos fala das pequenas misérias e prazeres do povo trabalhador: a operária de peixaria que não se consegue libertar do fedor; o imigrante de leste que conta aos amigos que na URSS era cosmonauta; o desempregado de meia-idade que se recusa a aceitar que ninguém lhe dá trabalho por ser velho demais; o antigo operário que lutou, fez greves e manifestações que perdeu e voltaria a fazer tudo outra vez; o cínico que traiu a sua classe por uns trocos. O retrato perfeito de quem sobrevive num eterno domingo.

8º Tempos Modernos (Modern Times)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1936
Realizador: Charlie Chaplin
A arte de Charlie Chaplin é agarrar um argumento sem nada de especial e num conjunto de cenas cómicas do mais simples que há e criar uma das obras primas do cinema: uma peça de arte de valor cinematográfico, artístico e histórico transcendente, que ressoa através do tempo e chega aos nossos com a mesma autoridade. O protagonista é um trabalhador que apenas quer levar uma vida honesta e ganhar para o pão, mas por alguma razão, tudo lhe corre mal e essa razão chama-se capitalismo.
7º Horizontes de Glória (Paths of Glory)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1957
Realizador: Stanley Kubrick
Horizontes de Glória é talvez a obra cinematográfica que melhor personifica os ideias anti-belicistas da esquerda. A película leva-nos às trincheiras fratricidas da I Guerra Mundial, onde seres humanos são jogados contra a lógica no campo de batalha pelos burocratas da morte. Quando um batalhão se recusa a avançar para uma morte certa, quatro soldados são escolhidos para ser fuzilados como bodes-expiatórios, pondo em marcha um debate marcante sobre o nacionalismo burguês, a autoridade e o valor da vida.

6º O Ódio (La Haine)
País: França
Ano: 1995
Realizador: Mathieu Kassovitz
O Ódio é um murro no estômago. Nesta Paris já não mora Amélie Poulain. Nesta França não há gente bonita a sonhar acordada entre os cafés dos anos sessenta, os jardins renascentistas e os apartamentos Haussmann. O Ódio é uma viagem com os excluídos da sociedade francesa, os que cheiram mal e não gostavam da escola. Não paternaliza nem idealiza, limita-se a seguir e a escutar os embaixadores da racaille, que cometem pequenos crimes, enfrentam os neonazis e o desprezo da sociedade, mantêm alguns dos diálogos mais autênticos do cinema francês e, contra todas as expectativas, sonham.

5º Harlan County, USA
País: Estados Unidos da América
Ano: 1976
Realizador: Barbara Kopple 
Como cantam os mineiros no filme, “Dizem que em Harlan County / por lá não há neutrais. / Ou és um sindicalista / ou um arruaceiro para o J. H. Blair. / De que lado estás, rapaz? / De que lado estás?” Este documentário está para os anos setenta como Outubro de Eisenstein está para os anos 20: é um autentico manual de organização de greves e um indescritível testemunho da coragem dos mineiros americanos. Os protagonistas desta luta, especialmente as mulheres, são tão genuínos que reduzem as personagens de qualquer obra de ficção a meras caricaturas. Nunca ouvi falar de quem terminasse o filme com os olhos secos.

4º O Sal da Terra (The Salt of the Earth)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1954
Realizador: Herbert J. Biberman
“Como posso começar a minha história que não tem começo? O meu nome é Esperanza, Esperanza Quintero. Sou a mulher de um mineiro. Esta é a nossa casa. A casa não é nossa. Mas as flores… as flores são nossas. Esta é a minha aldeia. Quando eu era uma criança, chamava-se São Marcos. Os “anglos” mudaram o nome para Zinc Town. Zinc Town, Novo México. As nossas raízes neste lugar são profundas. Mais profundas que os pinheiros, mais profundas que a mina”. Assim começa O Sal da Terra, que esteve banido nos Estados Unidos até aos anos 60. Todos os envolvidos na sua produção foram adicionados à infame lista negra do cinema norte-americano; a protagonista foi deportada para o México e o argumentista passou mais de um ano na prisão. Porquê? Porque este filme é perigoso por ser simultaneamente tão belo e tão corajoso. A luta dos mineiros norte-americanos vista de uma perspectiva de classe em que as mulheres e os imigrantes são líderes e iguais.

3º A Batalha de Argel (La battaglia di Algeri) 
País: Argélia e Itália
Ano: 1966
Realizador: Gillo Pontecorvo
A Batalha de Argel, banido em dezenas de países e censurado em quase todos. A magnum opus de Pontecorvo não se comociona com o falso humanismo burguês nem cede à vertigem infanto-militarista do esquerdismo. Num corte de direcção geniais e com actores tão hábeis que muitos espectadores acreditaram tratar-se de um documentário, mergulhamos numa das mais sangrentas revoluções da História e somos forçados a colocarmo-nos de um dos lados desta brutal barricada, opção que os oprimidos nunca tiveram. Nenhuma outra narrativa cinematográfica descreve de forma tão vívida e detalhada a revolta dos povos colonizados e as questões que A Batalha de Argel coloca são tão válidas para a Argélia dos anos 50 como para o Afeganistão dos nossos dias.

2º O Couraçado de Potemkin (Броненосец «Потёмкин»)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1925
Realizador: Sergei M. Eisenstein
Aos 88 anos, este filme mudo ainda não perdeu o pio. Pelo contrário, O Couraçado de Potemkin é uma lufada de frescura e ousadia no sapal por onde hoje paira o cinema comercial. A obra-prima de Eisenstein, não é nem mais nem menos que a obra fundadora do cinema moderno, tão bela como inspiradora, tão transgressora formal e esteticamente como revolucionária politicamente. Eisenstein domina a celuloide como Miguel Ângelo domina a pedra ou Matisse domina a cor e consegue levar-nos a cada emoção, a cada surpresa, a cada momento de indignação e solidariedade com tanta subtileza que só nos apercebemos do caminho percorrido chegados ao fim da jornada. Esta é a história verídica dos marinheiros que se recusaram a comer carne podre, porque eram gente. Esta é a história da luta de vida ou morte que se seguiu pela dignidade dos trabalhadores de Odessa, porque também eram gente. Esta é a história do massacre policial que se seguiu e das vozes que não puderam estrangular, porque, como dizia Adriano Correia de Oliveira, ninguém pode vencer um povo que resiste.
1º 1900 (Novecento)

País: Itália, França e Alemanha Ocidental
Ano: 1976
Realizador: Bernardo Bertolucci 
1900 é inigualável. Os campos da Emília-Romanha são a tela para a metáfora acabada do que foi o século XX, onde dois rapazes e duas classes sociais crescem e aprendem, separados por interesses inconciliáveis. Cada fotografia deste filme é um quadro repleto de beleza; todas as actuações, de Gérard Depardieu a Robert de Niro, são brilhantes; a música, de Ennio Morricone, é sublime. 1900 fala sobre a génese do fascismo, a vida dos que trabalham e a luta pelo socialismo na linguagem comum de toda a humanidade: o amor, o ódio, a compaixão e a solidariedade.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

EUA e a "Cultura da Morte": Documentário "Tiros em Columbine"

Tiros em Columbine – a égide do Medo

No dia 20 de abril de 1999, dois jovens estudantes entraram fortemente armados na biblioteca de uma escola pública na pequena Columbine – Littleton – Colorado, mataram doze colegas e um professor, suicidando-se em seguida. 
Este o mote do filme: tentar compreender os motivos de tanta violência gratuita, absurda e vastamente disseminada na sociedade estadunidense. Desnecessário enfatizar que não foram armas compradas legalmente, pois os jovens eram menores de idade e não tinham licenciamento, mesmo para a liberal legislação estadunidense. O fato é que os cidadãos da Nação mais belicosa do mundo têm motivos de sobra para viver sobressaltados, em permanente estado de temor e tremor. 
A seqüência de abertura tem um tom fortemente sarcástico: a montagem a partir de um outro filme propagandístico da Indústria Armamentista estadunidense apresenta um militar informando que a Associação Nacional do Rifle – hoje presidida por ninguém menos que Charlton Heston (Ben Hur, Os Dez Mandamentos...) – “produziu um filme que você considerará de grande interesse”. A seguir, ao som do “Battle Hymn of The Republic” (aquela que tem por refrão: “Glory, Glory, Alleluja, The truth is marching on!”) a narração do próprio Michael Moore informa de um dia normal nos Estados Unidos da América – o fazendeiro atua em sua lida, o entregador de leite cumpre o seu papel social, o presidente bombardeou mais um país cujo nome mal conseguimos pronunciar, a professora recebe sua turma para mais uma manhã de aulas e dois estudantes saem para jogar boliche às 6h da manhã. 
A seguir algo surpreendente: o North Country Bank, de Michigan, oferece um rifle gratuito a quem abrir uma conta. Moore abre a conta e sai da agência ostentando o rifle no ombro. 

Armas por toda a parte 

Moore apresenta uma sociedade aterrorizada, decidida a tomar sobre si a proteção de seus lares contra o inimigo. 
 Qual inimigo? E isso importa? Importante mesmo é que todos vivam com medo e assim a sociedade seja mantida sob controle, ainda que o preço para isto sejam desvios enlouquecidos. Em qualquer lugar do mundo, conseguir armas é algo exageradamente simples quando se dispõe de recursos e disposição para tanto, seja oficialmente, seja no mercado negro. Mas aprofundemos: seria o excesso de armas nas mãos de civis o motivo da violência existente nos EUA? 
Moore atravessa a fronteira norte e visita algumas cidades do Canadá. Encontra um país com o mesmo – senão ainda maior – número de armas de fogo nas mãos de civis e um índice de violência inacreditavelmente baixo. Entrevistando o Delegado de Polícia de uma cidade canadense de porte médio, percebe-se que ele encontra dificuldade em se recordar quando houve por ali o último homicídio. Após algum diálogo, constata que, para uma cidade aí de uns 500.000 habitantes, há uma média de 1 (UM) homicídio a cada 3 anos. 
 Outra coisa somente crível porque testemunhada, filmada e documentada é o fato de ninguém no Canadá trancar a porta de suas casas, vivem sem medo! Isto deixa o cineasta tão estarrecido que ele resolve visitar vários bairros de diferentes cidades e testa abrir as portas sem bater. Nenhuma está trancada. Em algumas encontra os moradores, que o recebem com cortesia e uma leve surpresa, mas ninguém no Canadá tranca a porta de suas casas. Enquanto é relativamente comum nos EUA que as pessoas tenham fechaduras e travas triplas ou quádruplas em suas portas fortificadas e muitos tenham pistolas e revólveres literalmente sob o travesseiro, no Canadá as portas ficam somente encostadas e as armas guardadas em armários para uso em caça... 
 Tudo aponta na direção de a violência não ter origem direta na quantidade de armas – idêntica nos dois países estudados no documentário – mas antes no viver sob a égide do medo. Quanto a mim sou radicalmente pacifista. 
É imoral fabricar mísseis mais caros que universidades, injustificável construir tanques de guerra mais onerosos que habitações populares, incrível que uma bala de revólver seja mais cara que um litro de leite. E tudo isto num mundo carente de universidades, moradias, leite... 
Não justifico a proliferação de armas, mas convenhamos, não é a ferramenta que causa problemas, mas o mau uso dela. O exemplo do Canadá é fantástico. Outro é o da Suíça, país em que todos os homens maiores de idade – e mulheres que sejam voluntárias – servem à Guarda Nacional do país por seis meses logo que atingem a maioridade e mantêm armas em casa; o país não aparece nas estatísticas de violência contra a pessoa. 

Contradições e Paradoxos Deliciosos 

Sempre gostei de contradições e paradoxos. E eles abundam no documentário. O gerente de uma fábrica de mísseis de longa distância em Colorado não consegue entender como é que jovens entram numa escola e saem matando pessoas a esmo. E não vê a menor conexão entre a utilidade do que fabrica – armas de destruição em massa – e a cultura da violência em seu país... 
O então presidente Bill Clinton aparece em rede nacional de TV justificando um bombardeio na Sérvia, considerando a destruição de escolas e hospitais “casualties of war” – acidentes de guerra – diante de um propósito maior. Uma hora depois a Casa Branca manifesta profundo pesar pelo massacre em Columbine e condena com veemência que se faça nos EUA o que os estadunidenses fazem alhures quase que diariamente...
Fonte: http://www.culturabrasil.org/tiros_columbine.htm 

 Vejam o Documentário:


domingo, 12 de agosto de 2012

Cabra Marcado Para Morrer (1984)


 



TÍTULO DO FILME: CABRA MARCADO PARA MORRER (Brasil, 1984) DIREÇÃO: Eduardo Coutinho
ELENCO: Elisabeth Teixeira e família, João Virgínio da Silva e os habitantes de Galiléia (Pernambuco). Narração de Ferreira Gullar, Tite Lemos e Eduardo Coutinho. 120 min., Globo Vídeo.
Gênero: Documentário, Ano de Lançamento: 1985, País de Origem: Brasil, Idioma do Áudio: Português do Brasil,

O filme “Cabra Marcado Para Morrer” de forma simples procura retratar a sociedade dos esquecidos, aqueles marginalizados dentro do sistema social. Abordando em seu contexto o movimento dos trabalhadores do campo. É interessante destacarmos que os personagens da produção são pessoas que verdadeiramente vivenciavam esta realidade em seu cotidiano.
Nada como um dia após outro com uma noite no meio e a graça de Deus pingando de hora em hora”.
O filme na minha concepção tem como objetivo retratar os diversos movimentos sociais que perpassam dentro de um espaço que destaca a terra como o alimento para milhões de trabalhadores no Brasil e no mundo. Apresentando-nos a arte silenciosa do movimento dos sem-terra, um discurso contextualizado e poematizado, de indivíduos que são “amantes” de sua terra, ou melhor, sendo eles o corpo onde habita a alma, a essência de sua terra.
O movimento MST (Movimento dos Sem-Terra) de forma totalmente contrária a mídia e a outros órgãos que de forma distorcida apresentam este movimento social, como um grupo composto por vândalos, etc. Na realidade quando estudamos o movimento MST, notamos que os membros do mesmo de forma organizada buscam difundir as suas ideologias.
 
A narrativa contextualizada do filme nos apresenta outro lado do movimento, onde fica visível a presença da poesia, ou seja, da arte gritante que mantém viva a centelha do movimento. A poesia é uma das formas mais precisas que os mesmos utilizam para engendrar a sua mensagem, seja ela discursada para um grupo maior de indivíduos, ou narrada como falas presente no cotidiano.
O título do filme procura valorizar a linguagem, o dialeto utilizado entre os indivíduos que compartilham do âmbito que destaca a terra, o trabalho agrícola como o meio para a sobrevivência. O Diretor Eduardo Coutinho se utiliza de uma linguagem simples para valorização e eternização de momentos, lugares e ações sociais que complexamente promoveram mudanças dentro do processo histórico.
 
É importante ressaltar que Eduardo Coutinho de forma complexa procura os mínimos detalhes para caracterização e ao mesmo tempo descaracterização do homem do campo: “um ser simples de pés nos chão, desdentados, com uma linguagem criada a partir de um dicionário formulado por eles mesmos; homens “simples”, porém dotados de muita sabedoria e experiência”.
A narrativa cinematográfica visa também ressalta a organização destes trabalhadores do campo que juntos realizam um movimento que de forma homogenia valorizam a sua terra.
Em suma, o filme “Cabra Marcado Para Morrer” nos traz uma linguagem simples, um discurso pregado por grupos sociais que são marginalizados, cabras que são marcados para morrer pelo sistema, porém indivíduos que bravamente lutam diariamente pela sobrevivência.
Por Dhiogo José Caetano Professor, historiador, escritor, poeta.
Cabra Marcado Para Morrer (1984). Direção e Roteiro: Eduardo Coutinho. Narração: Ferreira Gullar. Gênero: Documentário. Duração: 119 minutos.
Curiosidade: O filme originariamente era uma produção de 1964, com o mesmo diretor, e que foi interrompida pelo Golpe de 1964. Vinte anos depois foram reunidos os mesmos técnicos, locais e personagens reais para contar a sua história.
Fonte: http://cinemaeaminhapraia.com.br

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Batman – O Cavaleiro das Trevas: Ditadura do proletariado em Gotham City


Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez como os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação ideológica da nossa sociedade
Por Slavoj Žižek. Traduzido por Rogério Bettoni, para o Blog da Boitempo
Adverte-se aos leitores que o texto contém detalhes da trama de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Para ler a versão original, clique aqui.
Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez como os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação ideológica da nossa sociedade. A narrativa (resumida) se dá da seguinte maneira. Oito anos depois dos eventos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, capítulo anterior da saga Batman, a lei e a ordem prevalecem em Gotham City: sob os extraordinários poderes do Ato Dent, o comissário Gordon praticamente erradicou o crime violento e organizado. No entanto, ele se sente culpado pela cobertura dos crimes de Harvey Dent (Dent morreu ao tentar matar o filho de Gordon, salvo por Batman, que assumiu a culpa em nome da manutenção do mito de Dent, levando a uma demonização de Batman como vilão de Gotham) e planeja admitir a conspiração em um evento público de celebração a Dent, mas acaba concluindo que a cidade não está preparada para a verdade. Bruce Wayne, que não atua mais como Batman, vive isolado na própria mansão enquanto sua empresa desmorona depois de ter investido em um projeto de energia limpa criado para aproveitar a energia nuclear, mas encerrado quando ele descobriu que o núcleo poderia ser transformado em uma bomba. A lindíssima Miranda Tate, membra do conselho administrativo da Wayne Enterprises, convence Wayne a refazer a sociedade e continuar com seus trabalhos filantrópicos.
Aqui entra o (primeiro) vilão do filme: Bane, líder terrorista e antigo membro da Liga das Sombras, consegue a cópia do discurso de Gordon. Depois que as tramas financeiras de Bane quase levam a empresa de Wayne à falência, Wayne confia a Miranda a tarefa de controlar seus negócios, além de ter com ela um breve caso amoroso. (Nesse aspecto ela compete com a gata-ladra Selina Kyle, que rouba dos ricos para redistribuir a riqueza, mas acaba se juntando a Wayne e às forças da lei e da ordem.) Ao descobrir a movimentação de Bane, Wayne retorna como Batman e confronta Bane, que afirma ter assumido a Liga das Sombras após a morte de Ra’s Al Ghul. Depois de deixar Batman gravemente ferido em um combate corpo a corpo, Bane o coloca numa prisão de onde é praticamente impossível fugir. Seus companheiros de prisão contam para Wayne a história da única pessoa que conseguiu escapar: uma criança motivada pela necessidade e pela mera força de vontade. Enquanto o prisioneiro Wayne se recupera dos ferimentos e se prepara para ser Batman de novo, Bane consegue transformar Gotham City em uma cidade-Estado isolada. Primeiro ele atrai para o subsolo a maior parte dos policiais de Gotham e os prende lá; depois provoca explosões que destroem a maioria das pontes que conectavam Gotham City ao continente, anunciando que qualquer tentativa de deixar a cidade resultaria na detonação do núcleo de Wayne, do qual se apoderou e transformou em uma bomba.
Chegamos então ao momento crucial do filme: a tomada de poder por parte de Bane acontece junto com uma vasta ofensiva político-ideológica. Bane revela publicamente o acobertamento da morte de Dent e liberta os prisioneiros detidos pelo Ato Dent. Condenando os ricos e poderosos, ele promete devolver o poder ao povo, convocando as pessoas comuns a “tomarem a cidade de volta” – Bane revela-se como “o manifestante definitivo do Occupy Wall Street, convocando os 99% a se juntarem para derrubar as elites sociais”[1]. Segue-se então a ideia do filme de poder do povo: uma sequência mostra  uma série de julgamentos e execuções dos ricos, as ruas tomadas pelo crime e pela vilania… alguns meses depois, enquanto Gotham City continua sofrendo o terror popular, Wayne consegue fugir da prisão, retorna a Gotham como Batman e convoca os amigos para ajudá-lo a libertar a cidade e desarmar a bomba nuclear antes que ela exploda. Batman confronta e domina Bane, mas Miranda intervém e apunhala Batman – a benfeitora social revela-se como Talia al Ghul, filha de Ra’s: foi ela que escapou da prisão quando criança e foi Bane que a ajudou a fugir. Depois de comunicar seu plano de terminar a tarefa do pai de destruir Gotham, Talia foge. Na confusão que se segue, Gordon destrói o dispositivo que permitia a detonação remota da bomba enquanto Selina mata Bane, permitindo que Batman vá atrás de Talia. Ele tenta forçá-la a levar a bomba para a câmara de fusão onde pode ser estabilizada, mas Talia inunda a câmara. Talia morre quando seu caminhão bate, confiante de que a bomba não pode ser detida. Usando um helicóptero especial, Batman transporta a bomba para além dos limites da cidade, onde ela explode sobre o oceano e supostamente o mata.
Agora Batman é celebrado como um herói cujo sacrifício salvou Gotham City, enquanto Wayne é tido como morto nos motins. Após seus bens serem divididos, Alfred vê Bruce e Selina juntos em um café em Florença, enquanto Blake, jovem policial honesto que conhecia a identidade de Batman, herda a Batcaverna. Em suma, “Batman salva a situação, aparece incólume e continua com uma vida normal, enquanto outro o substitui no papel de defender o sistema”[2]. A primeira pista dos fundamentos ideológicos desse final é dada por Gordon, que, no (suposto) enterro de Wayne, lê as últimas linhas de Um conto de duas cidades, de Dickens: “Esta é, sem dúvida, a melhor coisa que faço e que jamais fiz; este é, sem dúvida, o melhor descanso que terei e que jamais tive”. Alguns críticos do filme interpretaram essa citação como um indício de que o filme “atinge o nível mais nobre da arte ocidental. O filme apela para o centro da tradição norte-americana – o ideal do nobre sacrifício pelo povo comum. Batman deve se humilhar para ser exaltado e renunciar à própria vida para encontrar uma nova. [...] Como máxima figura de Cristo, Batman sacrifica a si para salvar os outros”[3].
Dessa perspectiva, com efeito, Dickens está apenas a um passo de distância de Cristo no Calvário: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?” (Mt 16:25-26 da Bíblia de Jerusalém). O sacrifício de Batman como repetição da morte de Cristo? Essa ideia não seria comprometida pela última cena do filme (Wayne com Selina em um café em Florença)? O equivalente religioso desse final não seria a conhecida ideia blasfema de que Cristo realmente sobreviveu à crucificação e teve uma vida longa e pacífica (na Índia, ou talvez no Tibete, de acordo com algumas fontes)? A única maneira de remir essa cena final seria interpretá-la como um devaneio (alucinação) de Alfred, que se senta sozinho em um café em Florença. Outra característica dickensiana do filme é a queixa despolitizada sobre a lacuna entre ricos e pobres – no início do filme, Selina sussurra para Wayne enquanto eles dançam em um baile exclusivo da elite: “Está vindo uma tempestade, sr. Wayne. É melhor que estejam preparados. Pois quando ela chegar, todos se perguntarão como acharam que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto”. Nolan, como todo bom liberal, está “preocupado” com essa disparidade e reconhece que essa preocupação impregnou o filme:
O que vejo do filme relacionado ao mundo real é a ideia de desonestidade. O filme inteiro trata da chegada do seu ponto crítico. [...] A ideia de justiça econômica perpassa o filme, e por duas razões. Primeiro, Bruce Wayne é um bilionário. Isso tem de ser levado em conta. [...] E segundo, há muitas coisas na vida, e a economia é uma delas, em que precisamos confiar em grande parte do que nos dizem, pois a maioria de nós se sente desprovida das ferramentas analíticas para saber o que está acontecendo. [...] Não acho que existe uma perspectiva de direita ou de esquerda no filme. Ele faz apenas uma avaliação honesta, ou uma exploração honesta, do mundo em que vivemos – de coisas que nos preocupam.[4]
Para todos os participantes, inclusive Batman, a moralidade é relativizada, torna-se uma questão de conveniência, algo determinado pelas circunstâncias (Divulgação)
Por mais que os espectadores saibam que Wayne é extremamente rico, eles tendem a se esquecer de onde vem a riqueza dele: fabricação de armas e especulação financeira, e é por isso que as jogadas de Bane na Bolsa de Valores podem destruir seu império – traficante de armas e especulador, esse é o verdadeiro segredo por trás da máscara do Batman. De que modo o filme lida com isso? Ressuscitando o tema arquetípico dickensiano do bom capitalista que se envolve no financiamento de orfanatos (Wayne) versus o mau e ganancioso capitalista (Stryver, como em Dickens). Nessa moralização dickensiana excessiva, a disparidade econômica é traduzida na “desonestidade” que deveria ser “honestamente” analisada, embora não tenhamos nenhum mapeamento cognitivo confiável, e uma abordagem “honesta” como essa nos leva a mais um paralelo com Dickens – é como afirmou Jonathan (corroteirista), irmão de Christopher Nolan, sem rodeios: “Para mim, Um conto de duas cidades foi o retrato mais angustiante de uma civilização reconhecível e descritível que se desintegrou completamente em pedaços. Com os terrores em Paris, na França daquela época, não é difícil imaginar que as coisas dariam tão errado assim”[5]. As cenas do vingativo levante populista no filme (uma multidão sedenta pelo sangue dos ricos que os ignoraram e exploraram) evocam a descrição de Dickens do Reino do Terror, tanto que, embora não tenha nada a ver com política, o filme segue o romance de Dickens ao retratar “honestamente” os revolucionários como fanáticos possuídos, e assim fornece a caricatura do que, na vida real, seriam revolucionários comprometidos ideologicamente no combate da injustiça estrutural. Hollywood conta o que o establishment quer que saibamos – que os revolucionários são criaturas brutais, sem nenhum respeito pela vida humana. Apesar da retórica emancipatória sobre a libertação, eles têm projetos sinistros por trás. Portanto, quaisquer que sejam as razões, elas precisam ser eliminadas.[6]
Tom Charity destacou corretamente “a defesa que o filme faz do establishment na forma de bilionários filantrópicos e uma polícia corrupta” – na sua desconfiança das pessoas que resolvem as coisas com as próprias mãos, o filme “demonstra tanto o desejo por justiça social quanto o medo do que realmente pode parecer nas mãos de uma multidão”[7]. Aqui, Karthick levanta uma questão bem clara sobre a imensa popularidade da figura do Coringa no filme anterior: qual o motivo de uma atitude tão hostil para com Bane quando o Coringa foi tratado com tanta mansidão no filme anterior? A resposta é simples e convincente:
O Coringa, que clama por anarquia na sua mais pura manifestação, enfatiza a hipocrisia da civilização burguesa como ela existe, mas é impossível traduzir suas visões em uma ação de massa. Bane, por outro lado, representa uma ameaça existencial ao sistema de opressão. [...] Sua força não é apenas a psique, mas também sua capacidade de comandar as pessoas e mobilizá-las rumo a um objetivo político. Ele representa a vanguarda, o representante organizado dos oprimidos que promove a luta política em nome deles para gerar mudanças sociais. Tamanha força, com o maior dos potenciais subversivos, não tem lugar dentro do sistema. Ela precisa ser eliminada.[8]
No entanto, ainda que Bane não tenha o fascínio do Coringa de Heath Ledger, há uma característica que o distingue desse último: o amor incondicional, a mesma fonte da sua dureza. Em uma cena curta mas comovente, vemos como, em um ato de amor no meio do sofrimento terrível, Bane salvou a garota Talia sem se importar com as consequências e pagando um preço terrível por isso (foi espancado quase até a morte por defendê-la). Karthick tem toda razão ao situar esse acontecimento dentro da longa tradição, de Cristo a Che Guevara, que exalta a violência como uma “obra do amor”, como nas famosas palavras do diário de Che Guevara: “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem essa qualidade”[9]. O que encontramos aqui nem é tanto a “cristificação de Che”, mas sim uma “cheização do próprio Cristo” – o Cristo cujas palavras “escandalosas” de Lucas (“se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo” [Lc 14:26]) apontam exatamente na mesma direção que a famosa citação de Che: “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura”. A afirmação de que “o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor” deveria ser interpretada juntamente com a declaração muito mais “problemática” de Guevara sobre os revolucionários como “máquinas de matar”:
O ódio é um elemento da luta; o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar. Assim devem ser nossos soldados; um povo sem ódio não derrota um inimigo brutal.
Ou, parafraseando Kant e Robespierre mais uma vez: o amor sem crueldade é impotente; a crueldade sem amor é cega, paixão efêmera que perde todo seu vigor. Guevara está parafraseando as declarações de Cristo sobre a unidade do amor e da espada – em ambos os casos, o paradoxo subjacente consiste nisto: o que torna o amor angelical, o que o eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética, é essa mesma crueldade, o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão incondicional. É por isso que, voltando a O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o único amor autêntico no filme é o de Bane, o “amor do terrorista”, em nítido contraste a Batman.
Nesse mesmo viés, a figura de Ra’s, pai de Talia, merece um exame mais cuidadoso. Ra’s é uma mistura de características árabes e orientais, um agente do virtuoso terror lutando para contrabalancear a corrompida civilização ocidental. O personagem é interpretado por Liam Neeson, ator cuja persona na tela geralmente irradia uma nobre bondade e sabedoria (ele faz o papel de Zeus em Fúria de Titãs), e que também representa Qui-Gon Jinn em A Ameaça Fantasma, primeiro episódio da série Star Wars. Qui-Gon é um cavaleiro Jedi, mentor de Obi-Wan Kenobi, bem como o descobridor de Anakin Skywalker, acreditando que Anakin é O Escolhido que restituirá o equilíbrio do universo, ignorando os alertas de Yoda sobre a natureza instável de Anakin; no final de A Ameaça Fantasma, Qui-Gon é morto por Darth Maul[10].
Na trilogia Batman, Ra’s também é professor do jovem Wayne: em Batman Begins, ele encontra Wayne em uma prisão chinesa; apresentando-se como Henri Ducard, ele oferece um “caminho” para o garoto. Depois que Wayne é libertado, ele segue até a fortaleza da Liga das Sombras, onde Ra’s está esperando, embora se apresente como servo de outro homem chamado Ra’s Al Ghul. Depois de um longo e doloroso treinamento, Ra’s explica que Bruce deve fazer o que for preciso para combater o mal, embora revele que eles treinaram Bruce para liderar a Liga com o intuito de destruir Gotham City, que eles acreditam ter se tornado irremediavelmente corrupta. Portanto, Ra’s não é a simples encarnação do Mal: ele representa a combinação de virtude e terror, a disciplina igualitária que combate um império corrupto, e assim pertence ao fio condutor (na ficção recente) que vai de Paul Atreides em Duna até Leônidas em300 de Esparta. E é crucial que Wayne seja seu discípulo: Wayne foi formado como Batman por ele.
Duas críticas do senso-comum se apresentam aqui. A primeira é de que houveviolência e matanças monstruosas nas revoluções reais, desde o estalinismo ao Khmer Vermelho, por isso está claro que o filme não está apenas engajado na imaginação revolucionária. A segunda, oposta, é esta: o atual movimento Occupy Wall Street não foi violento, seu objetivo definitivamente não era um novo reino do terror; na medida em que se espera que a revolta de Bane extrapole a tendência imanente do movimento OWS, o filme, portanto, deturpa de maneira absurda seus objetivos e estratégias. Os atuais protestos antiglobalistas são o exato oposto do terror brutal de Bane: este representa a imagem espelhada do terror estatal, uma seita fundamentalista e homicida dominada e controlada pelo terror, e não a sua superação por meio da auto-organização popular… As duas críticas compartilham a rejeição da figura de Bane. A resposta a essas duas críticas é múltipla.
Primeiro, devemos esclarecer o atual escopo da violência – a melhor resposta para a afirmação de que a reação violenta da multidão à opressão é pior que a opressão original foi dada por Mark Twain no seu Um ianque na corte do rei Artur: “Houve dois ‘Reinos do Terror’, se bem nos lembramos; um forjado na incandescente paixão, outro no desumano sangue frio. [...] Mas todos os nossos temores, que os tenhamos pelo menor terror, o momentâneo, por assim dizer; pois o que é o terror da morte súbita pelo machado se comparado à morte em toda uma vida de fome, frio, insulto, crueldade e desilusão? O cemitério de qualquer cidade pode bem conter os caixões cheios desse breve terror, que todos aprendemos com afinco a temer e lamentar; mas a França inteira mal conteria os caixões cheios daquele outro terror, mais antigo e verdadeiro, o terror de amargura e atrocidade indizíveis, que nenhum de nós aprendeu a encarar em toda sua amplitude ou desprezo que merece”.
Depois, deveríamos desmistificar o problema da violência, rejeitando afirmações simplistas de que o comunismo do século XX agiu com uma violência homicida excessiva demais, e de que deveríamos tomar cuidado para não cair mais uma vez nessa armadilha. Com efeito, trata-se de uma terrível verdade – mas esse foco voltado diretamente para a violência obscurece uma questão basilar: o que houve de errado no projeto comunista do século XX como tal, qual foi o ponto fraco imanente desse projeto que impulsionou o comunismo a recorrer (não só) aos comunistas no poder para a violência irrestrita? Em outras palavras, não basta dizer que os comunistas “negligenciaram o problema da violência”: foi um aspecto sócio-político mais profundo que os impulsionou à violência. (O mesmo se aplica à ideia de que os comunistas “negligenciaram a democracia”: seu projeto geral de transformação social impôs sobre eles esse “negligenciar”.) Portanto, não é apenas o filme de Nolan que foi incapaz de imaginar o poder autêntico do povo – os próprios movimentos “reais” de emancipação radical também não o fizeram e continuam presos nas coordenadas da antiga sociedade, e, por essa razão, muitas vezes o efetivo “poder do povo” foi esse horror violento.
E, por último, mas não menos importante, é muito simples dizer que não há potencial violento no movimento OWS e similares – há sim uma violência em jogo em todo processo emancipatório autêntico: o problema com o filme é que ele traduziu essa violência de uma maneira errada em terror homicida. Qual é, então, a sublime violência em relação à qual até mesmo o mais brutal assassinato é um ato de fraqueza? Façamos uma digressão em Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, que conta a história dos estranhos eventos na capital sem nome de um país democrático não identificado. Quando a manhã do dia das eleições é arruinada por chuvas torrenciais, a quantidade de eleitores presentes é extremamente baixa, mas o tempo melhora no meio da tarde e a população segue em massa para as seções eleitorais. No entanto, o alívio do governo logo acaba quando a contagem de votos revela que 70% das cédulas na capital foram deixados em branco. Frustrado por esse aparente lapso civil, o governo dá aos cidadãos a chance de refazer o fato uma semana depois, em mais um dia de eleição. O resultado é pior: agora 83% dos votos foram brancos. Os dois principais partidos políticos – o governante partido da direita (p.d.d.) e seu principal adversário, o partido do meio (p.d.m.) – entram em pânico, enquanto o infeliz e marginalizado partido da esquerda (p.d.e.) apresenta uma análise afirmando que os votos brancos são, essencialmente, um voto por sua agenda progressiva. Sem saber como responder a um protesto benigno, mas certo de que existe uma conspiração antidemocrática, o governo rapidamente rotula o movimento de “terrorismo puro e duro” e declara estado de emergência, permitindo a suspensão de todas as garantias constitucionais e adotando uma série de medidas cada vez mais drásticas: os cidadãos são apanhados aleatoriamente e desaparecem em interrogatórios secretos, a polícia e a sede do governo saem da capital, proibindo a entrada e a saída da cidade e, por fim, fabricando seu próprio líder terrorista. A cidade toda continua funcionando quase normalmente, as pessoas se esquivam de todas as ofensivas do governo com uma harmonia inexplicável e com um verdadeiro nível gandhiano de resistência não violenta… isso, a abstenção dos eleitores, é um exemplo de “violência divina” verdadeiramente radical que desperta reações de pânico brutal nos detentores do poder.
Voltando a Nolan, a trilogia dos filmes do Batman, portanto, segue uma lógica imanente. Em Batman Begins, o herói continua dentro dos limites de uma ordem liberal: o sistema pode ser defendido com métodos moralmente aceitáveis. O Cavaleiro das Trevas é de fato uma nova versão de dois clássicos de faroeste de John Ford (Sangue de Heróis e O Homem Que Matou o Facínora) que retratam como, para civilizar o ocidente selvagem, é preciso “publicar a lenda” e ignorar a verdade – em suma, como nossa civilização tem de se fundamentar em uma Mentira: é preciso quebrar as regras para defender o sistema. Ou, dito de outra forma, em Batman Begins, o herói é simplesmente uma figura clássica do vigilante urbano que pune os criminosos naquilo que a polícia não pode; o problema é que a polícia, órgão responsável pela imposição das leis, relaciona-se de maneira ambígua à ajuda de Batman: enquanto admite sua eficácia, ela também considera Batman uma ameaça ao seu monopólio do poder e uma testemunha da sua ineficácia. No entanto, a transgressão de Batman aqui é puramente formal, consiste em agir em nome da lei sem a legitimação para fazê-lo: nos seus atos, ele nunca viola a lei. O Cavaleiro das Trevas muda essas coordenadas: o verdadeiro rival de Batman não é o Coringa, seu oponente, mas Harvey Dent, o “cavaleiro branco”, o novo e agressivo promotor público, um tipo de vigilante oficial cuja batalha fanática contra o crime o conduz ao assassinato de pessoas inocentes e o destrói. É como se Dent fosse a resposta à ordem legal da ameaça de Batman: contra a vigilante luta de Batman, o sistema gera seu próprio excesso ilegal, seu próprio vigilante, muito mais violento que Batman, violando diretamente a lei. Desse modo, há uma justiça poética no fato de que, quando Bruce planeja revelar ao público sua identidade como Batman, Dent o interrompe e se apresenta como Batman – ele é “mais Batman que o próprio Batman”, efetivando a tentação à qual Batman ainda era capaz de resistir. Então quando, no final do filme, Batman assume os crimes cometidos por Dent para salvar a reputação do herói popular que incorpora a esperança para o povo comum, seu ato modesto tem uma ponta de verdade: Batman, de certa forma, devolve o favor a Dent. Seu ato é um gesto de troca simbólica: primeiro Dent toma para si a identidade de Batman, e depois Wayne – o Batman verdadeiro – toma para si os crimes de Dent.
Por fim, O Cavaleiro das Trevas Ressurge ultrapassa ainda mais os limites: Bane não seria Dent levado ao extremo, à sua autonegação? Dent que chega à conclusão de que o sistema é injusto, de modo que, para combater a injustiça com eficácia, é preciso atacar diretamente o sistema e destruí-lo? E, como parte da mesma atitude, Dent que perde as últimas inibições e está pronto para usar toda sua brutalidade assassina para atingir esse objetivo? O advento dessa figura muda a constelação inteira: para todos os participantes, inclusive Batman, a moralidade é relativizada, torna-se uma questão de conveniência, algo determinado pelas circunstâncias: é uma guerra de classes aberta, tudo é permitido para defender o sistema quando estamos lidando não só com gângsteres malucos, mas com uma revolta popular.
Será, então, que isso é tudo? O filme deveria ser categoricamente rejeitado por quem se envolve em lutas emancipatórias radicais? As coisas são mais ambíguas, e é preciso interpretar o filme da maneira que se interpreta um poema político chinês: as ausências e as presenças surpreendentes também contam. Recordemos a antiga história francesa sobre uma esposa que reclama do melhor amigo do marido, dizendo que o amigo tem se insinuado sexualmente para ela: leva algum tempo para que o amigo surpreso entenda a mensagem – de uma maneira invertida, ela o está incitando a seduzi-la… É como o inconsciente freudiano que não conhece a negação: o que importa não é um juízo negativo sobre algo, mas o simples fato de que esse algo seja mencionado – em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o poder do povo ESTÁ AQUI, encenado como um Evento, em um passo fundamental dado a partir dos oponentes habituais de Batman (criminosos megacapitalistas, gângsteres e terroristas).
Temos aqui a primeira pista – a perspectiva de que o movimento OWS tome o poder e estabeleça a democracia do povo em Manhattan é nítida e completamente tão absurda e irreal que não podemos deixar de fazer a seguinte pergunta: POR QUE UM IMPORTANTE BLOCKBUSTER DE HOLLYWOOD SONHA COM ISSO, POR QUE EVOCA ESSE ESPECTRO? Por que sequer sonhar com o OWS culminando em uma violenta tomada de poder? A resposta óbvia (manchar o OWS com acusações de que ele guarda um potencial terrorista totalitário) não é o bastante para explicar a estranha atração exercida pela perspectiva do “poder do povo”. Não admira que o funcionamento apropriado desse poder continue branco, ausente: nenhum detalhe é dado sobre como funciona esse poder do povo, sobre o que as pessoas mobilizadas estão fazendo (é preciso lembrar que Bane diz que as pessoas podem fazer o que quiserem – ele não impõe sobre elas a sua própria ordem).
É por isso que a crítica externa do filme (“sua retratação do reino do OWS é uma caricatura ridícula”) não basta – a crítica tem de ser imanente, tem de situar dentro do próprio filme uma multiplicidade de sinais que aponte para o Evento autêntico. (Recordemos, por exemplo, que Bane não é apenas um terrorista brutal, mas sim uma pessoa de profundo amor e sacrifício.) Em suma, a ideologia pura não é possível, a autenticidade de Bane TEM de deixar rastros na tecitura do filme. É por isso que o filme merece uma leitura mais íntima: o Evento – a “república do povo de Gotham City”, a ditadura do proletariado sobre Manhattan – é imanente ao filme, é o seu centro ausente.

[1] Tyler O’Neil, “Dark Knight and Occupy Wall Street: The Humble Rise”,Hillsdale Natural Law Review, 21 de  julho de 2012.
[2] Karthick RM, “The Dark Knight Rises a ‘Fascist’?”Society and Culture, 21 de julho de 2012.
[3] Tyler O’Neil, cit.
[4] Christopher Nolan, entrevista na Entertainment 1216 (julho de 2012), p. 34.
[5] Entrevista de Christopher e Jonathan Nolan ao Buzzine Film.
[6] Karthick, cit.
[7] Forrest Whitman, “The Dickensian Aspects of The Dark Knight Rises”, 21 de julho de 2012.
[8] Karthick, cit.
[9] Citado em Jon Lee Anderton, Che Guevara: A Revolutionary Life, New York: Grove 1997, p. 636-637.
[10] Notemos a ironia do fato de que o filho de Neeson é um xiita devoto, e que o próprio Neeson às vezes fala sobre a sua futura conversão ao islamismo.