quinta-feira, 30 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
Cabra Marcado Para Morrer (1984)
TÍTULO DO FILME: CABRA MARCADO PARA MORRER (Brasil, 1984) DIREÇÃO: Eduardo Coutinho
ELENCO: Elisabeth Teixeira e família, João Virgínio da Silva e os
habitantes de Galiléia (Pernambuco). Narração de Ferreira Gullar, Tite
Lemos e Eduardo Coutinho. 120 min., Globo Vídeo.
Gênero: Documentário, Ano de Lançamento: 1985, País de Origem: Brasil, Idioma do Áudio: Português do Brasil,
O filme “Cabra Marcado Para Morrer”
de forma simples procura retratar a sociedade dos esquecidos, aqueles
marginalizados dentro do sistema social. Abordando em seu contexto o
movimento dos trabalhadores do campo. É interessante destacarmos que os
personagens da produção são pessoas que verdadeiramente vivenciavam esta
realidade em seu cotidiano.
“Nada como um dia após outro com uma noite no meio e a graça de Deus pingando de hora em hora”.
O filme na minha concepção tem como
objetivo retratar os diversos movimentos sociais que perpassam dentro de
um espaço que destaca a terra como o alimento para milhões de
trabalhadores no Brasil e no mundo. Apresentando-nos a arte silenciosa
do movimento dos sem-terra, um discurso contextualizado e poematizado,
de indivíduos que são “amantes” de sua terra, ou melhor, sendo eles o
corpo onde habita a alma, a essência de sua terra.
O movimento MST (Movimento dos Sem-Terra)
de forma totalmente contrária a mídia e a outros órgãos que de forma
distorcida apresentam este movimento social, como um grupo composto por
vândalos, etc. Na realidade quando estudamos o movimento MST, notamos
que os membros do mesmo de forma organizada buscam difundir as suas
ideologias.
A
narrativa contextualizada do filme nos apresenta outro lado do
movimento, onde fica visível a presença da poesia, ou seja, da arte
gritante que mantém viva a centelha do movimento. A poesia é uma das
formas mais precisas que os mesmos utilizam para engendrar a sua
mensagem, seja ela discursada para um grupo maior de indivíduos, ou
narrada como falas presente no cotidiano.
O título do filme procura valorizar a
linguagem, o dialeto utilizado entre os indivíduos que compartilham do
âmbito que destaca a terra, o trabalho agrícola como o meio para a
sobrevivência. O Diretor Eduardo Coutinho se utiliza de
uma linguagem simples para valorização e eternização de momentos,
lugares e ações sociais que complexamente promoveram mudanças dentro do
processo histórico.
É importante ressaltar que Eduardo Coutinho de forma complexa procura os mínimos detalhes para caracterização e ao mesmo tempo descaracterização do homem do campo: “um
ser simples de pés nos chão, desdentados, com uma linguagem criada a
partir de um dicionário formulado por eles mesmos; homens “simples”,
porém dotados de muita sabedoria e experiência”.
A narrativa cinematográfica visa também
ressalta a organização destes trabalhadores do campo que juntos realizam
um movimento que de forma homogenia valorizam a sua terra.
Em suma, o filme “Cabra Marcado Para Morrer”
nos traz uma linguagem simples, um discurso pregado por grupos sociais
que são marginalizados, cabras que são marcados para morrer pelo
sistema, porém indivíduos que bravamente lutam diariamente pela
sobrevivência.
Por Dhiogo José Caetano Professor, historiador, escritor, poeta.
Cabra Marcado Para Morrer (1984). Direção e Roteiro: Eduardo Coutinho. Narração: Ferreira Gullar. Gênero: Documentário. Duração: 119 minutos.
Curiosidade: O
filme originariamente era uma produção de 1964, com o mesmo diretor, e
que foi interrompida pelo Golpe de 1964. Vinte anos depois foram
reunidos os mesmos técnicos, locais e personagens reais para contar a
sua história.
Fonte: http://cinemaeaminhapraia.com.br
Fonte: http://cinemaeaminhapraia.com.br
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Batman – O Cavaleiro das Trevas: Ditadura do proletariado em Gotham City
Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez como os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação ideológica da nossa sociedade
Por Slavoj Žižek. Traduzido por Rogério Bettoni, para o Blog da Boitempo
Adverte-se aos leitores que o texto contém detalhes da trama
de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Para ler a versão original,
clique aqui.
Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez
como os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação
ideológica da nossa sociedade. A narrativa (resumida) se dá da seguinte
maneira. Oito anos depois dos eventos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, capítulo anterior da saga Batman,
a lei e a ordem prevalecem em Gotham City: sob os extraordinários
poderes do Ato Dent, o comissário Gordon praticamente erradicou o crime
violento e organizado. No entanto, ele se sente culpado pela cobertura
dos crimes de Harvey Dent (Dent morreu ao tentar matar o filho de
Gordon, salvo por Batman, que assumiu a culpa em nome da manutenção do
mito de Dent, levando a uma demonização de Batman como vilão de Gotham) e
planeja admitir a conspiração em um evento público de celebração a
Dent, mas acaba concluindo que a cidade não está preparada para a
verdade. Bruce Wayne, que não atua mais como Batman, vive isolado na
própria mansão enquanto sua empresa desmorona depois de ter investido em
um projeto de energia limpa criado para aproveitar a energia nuclear,
mas encerrado quando ele descobriu que o núcleo poderia ser transformado
em uma bomba. A lindíssima Miranda Tate, membra do conselho
administrativo da Wayne Enterprises, convence Wayne a refazer a
sociedade e continuar com seus trabalhos filantrópicos.
Aqui entra o (primeiro) vilão do filme: Bane, líder terrorista e
antigo membro da Liga das Sombras, consegue a cópia do discurso de
Gordon. Depois que as tramas financeiras de Bane quase levam a empresa
de Wayne à falência, Wayne confia a Miranda a tarefa de controlar seus
negócios, além de ter com ela um breve caso amoroso. (Nesse aspecto ela
compete com a gata-ladra Selina Kyle, que rouba dos ricos para
redistribuir a riqueza, mas acaba se juntando a Wayne e às forças da lei
e da ordem.) Ao descobrir a movimentação de Bane, Wayne retorna como
Batman e confronta Bane, que afirma ter assumido a Liga das Sombras após
a morte de Ra’s Al Ghul. Depois de deixar Batman gravemente ferido em
um combate corpo a corpo, Bane o coloca numa prisão de onde é
praticamente impossível fugir. Seus companheiros de prisão contam para
Wayne a história da única pessoa que conseguiu escapar: uma criança
motivada pela necessidade e pela mera força de vontade. Enquanto o
prisioneiro Wayne se recupera dos ferimentos e se prepara para ser
Batman de novo, Bane consegue transformar Gotham City em uma
cidade-Estado isolada. Primeiro ele atrai para o subsolo a maior parte
dos policiais de Gotham e os prende lá; depois provoca explosões que
destroem a maioria das pontes que conectavam Gotham City ao continente,
anunciando que qualquer tentativa de deixar a cidade resultaria na
detonação do núcleo de Wayne, do qual se apoderou e transformou em uma
bomba.
Chegamos então ao momento crucial do filme: a tomada de poder por
parte de Bane acontece junto com uma vasta ofensiva político-ideológica.
Bane revela publicamente o acobertamento da morte de Dent e liberta os
prisioneiros detidos pelo Ato Dent. Condenando os ricos e poderosos, ele
promete devolver o poder ao povo, convocando as pessoas comuns a
“tomarem a cidade de volta” – Bane revela-se como “o manifestante
definitivo do Occupy Wall Street, convocando os 99% a se juntarem para
derrubar as elites sociais”[1].
Segue-se então a ideia do filme de poder do povo: uma sequência mostra
uma série de julgamentos e execuções dos ricos, as ruas tomadas pelo
crime e pela vilania… alguns meses depois, enquanto Gotham City continua
sofrendo o terror popular, Wayne consegue fugir da prisão, retorna a
Gotham como Batman e convoca os amigos para ajudá-lo a libertar a cidade
e desarmar a bomba nuclear antes que ela exploda. Batman confronta e
domina Bane, mas Miranda intervém e apunhala Batman – a benfeitora
social revela-se como Talia al Ghul, filha de Ra’s: foi ela que escapou
da prisão quando criança e foi Bane que a ajudou a fugir. Depois de
comunicar seu plano de terminar a tarefa do pai de destruir Gotham,
Talia foge. Na confusão que se segue, Gordon destrói o dispositivo que
permitia a detonação remota da bomba enquanto Selina mata Bane,
permitindo que Batman vá atrás de Talia. Ele tenta forçá-la a levar a
bomba para a câmara de fusão onde pode ser estabilizada, mas Talia
inunda a câmara. Talia morre quando seu caminhão bate, confiante de que a
bomba não pode ser detida. Usando um helicóptero especial, Batman
transporta a bomba para além dos limites da cidade, onde ela explode
sobre o oceano e supostamente o mata.
Agora Batman é celebrado como um herói cujo sacrifício salvou Gotham
City, enquanto Wayne é tido como morto nos motins. Após seus bens serem
divididos, Alfred vê Bruce e Selina juntos em um café em Florença,
enquanto Blake, jovem policial honesto que conhecia a identidade de
Batman, herda a Batcaverna. Em suma, “Batman salva a situação, aparece
incólume e continua com uma vida normal, enquanto outro o substitui no
papel de defender o sistema”[2].
A primeira pista dos fundamentos ideológicos desse final é dada por
Gordon, que, no (suposto) enterro de Wayne, lê as últimas linhas de Um conto de duas cidades,
de Dickens: “Esta é, sem dúvida, a melhor coisa que faço e que jamais
fiz; este é, sem dúvida, o melhor descanso que terei e que jamais tive”.
Alguns críticos do filme interpretaram essa citação como um indício de
que o filme “atinge o nível mais nobre da arte ocidental. O filme apela
para o centro da tradição norte-americana – o ideal do nobre sacrifício
pelo povo comum. Batman deve se humilhar para ser exaltado e renunciar à
própria vida para encontrar uma nova. [...] Como máxima figura de
Cristo, Batman sacrifica a si para salvar os outros”[3].
Dessa perspectiva, com efeito, Dickens está apenas a um passo de
distância de Cristo no Calvário: “Pois aquele que quiser salvar a sua
vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai
encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro
mas arruinar a sua vida?” (Mt 16:25-26 da Bíblia de Jerusalém). O
sacrifício de Batman como repetição da morte de Cristo? Essa ideia não
seria comprometida pela última cena do filme (Wayne com Selina em um
café em Florença)? O equivalente religioso desse final não seria a
conhecida ideia blasfema de que Cristo realmente sobreviveu à
crucificação e teve uma vida longa e pacífica (na Índia, ou talvez no
Tibete, de acordo com algumas fontes)? A única maneira de remir essa
cena final seria interpretá-la como um devaneio (alucinação) de Alfred,
que se senta sozinho em um café em Florença. Outra característica
dickensiana do filme é a queixa despolitizada sobre a lacuna entre ricos
e pobres – no início do filme, Selina sussurra para Wayne enquanto eles
dançam em um baile exclusivo da elite: “Está vindo uma tempestade, sr.
Wayne. É melhor que estejam preparados. Pois quando ela chegar, todos se
perguntarão como acharam que poderiam viver com tanto e deixar tão
pouco para o resto”. Nolan, como todo bom liberal, está “preocupado” com
essa disparidade e reconhece que essa preocupação impregnou o filme:
O que vejo do filme relacionado ao mundo real é a ideia de
desonestidade. O filme inteiro trata da chegada do seu ponto crítico.
[...] A ideia de justiça econômica perpassa o filme, e por duas razões.
Primeiro, Bruce Wayne é um bilionário. Isso tem de ser levado em conta.
[...] E segundo, há muitas coisas na vida, e a economia é uma delas, em
que precisamos confiar em grande parte do que nos dizem, pois a maioria
de nós se sente desprovida das ferramentas analíticas para saber o que
está acontecendo. [...] Não acho que existe uma perspectiva de direita
ou de esquerda no filme. Ele faz apenas uma avaliação honesta, ou uma
exploração honesta, do mundo em que vivemos – de coisas que nos
preocupam.[4]

Para
todos os participantes, inclusive Batman, a moralidade é relativizada,
torna-se uma questão de conveniência, algo determinado pelas
circunstâncias (Divulgação)
Por mais que os espectadores saibam que Wayne é extremamente rico,
eles tendem a se esquecer de onde vem a riqueza dele: fabricação de
armas e especulação financeira, e é por isso que as jogadas de Bane na
Bolsa de Valores podem destruir seu império – traficante de armas e
especulador, esse é o verdadeiro segredo por trás da máscara do
Batman. De que modo o filme lida com isso? Ressuscitando o tema
arquetípico dickensiano do bom capitalista que se envolve no
financiamento de orfanatos (Wayne) versus o mau e ganancioso capitalista
(Stryver, como em Dickens). Nessa moralização dickensiana excessiva, a
disparidade econômica é traduzida na “desonestidade” que deveria ser
“honestamente” analisada, embora não tenhamos nenhum mapeamento
cognitivo confiável, e uma abordagem “honesta” como essa nos leva a mais
um paralelo com Dickens – é como afirmou Jonathan (corroteirista),
irmão de Christopher Nolan, sem rodeios: “Para mim, Um conto de duas cidades foi
o retrato mais angustiante de uma civilização reconhecível e
descritível que se desintegrou completamente em pedaços. Com os terrores
em Paris, na França daquela época, não é difícil imaginar que as coisas
dariam tão errado assim”[5].
As cenas do vingativo levante populista no filme (uma multidão sedenta
pelo sangue dos ricos que os ignoraram e exploraram) evocam a descrição
de Dickens do Reino do Terror, tanto que, embora não tenha nada a ver
com política, o filme segue o romance de Dickens ao retratar
“honestamente” os revolucionários como fanáticos possuídos, e assim
fornece a caricatura do que, na vida real, seriam revolucionários
comprometidos ideologicamente no combate da injustiça estrutural.
Hollywood conta o que o establishment quer que saibamos – que os
revolucionários são criaturas brutais, sem nenhum respeito pela vida
humana. Apesar da retórica emancipatória sobre a libertação, eles têm
projetos sinistros por trás. Portanto, quaisquer que sejam as razões,
elas precisam ser eliminadas.[6]
Tom Charity destacou corretamente “a defesa que o filme faz do establishment na
forma de bilionários filantrópicos e uma polícia corrupta” – na sua
desconfiança das pessoas que resolvem as coisas com as próprias mãos, o
filme “demonstra tanto o desejo por justiça social quanto o medo do que
realmente pode parecer nas mãos de uma multidão”[7].
Aqui, Karthick levanta uma questão bem clara sobre a imensa
popularidade da figura do Coringa no filme anterior: qual o motivo de
uma atitude tão hostil para com Bane quando o Coringa foi tratado com
tanta mansidão no filme anterior? A resposta é simples e convincente:
O Coringa, que clama por anarquia na sua mais pura manifestação,
enfatiza a hipocrisia da civilização burguesa como ela existe, mas é
impossível traduzir suas visões em uma ação de massa. Bane, por outro
lado, representa uma ameaça existencial ao sistema de opressão. [...]
Sua força não é apenas a psique, mas também sua capacidade de comandar
as pessoas e mobilizá-las rumo a um objetivo político. Ele representa a
vanguarda, o representante organizado dos oprimidos que promove a luta
política em nome deles para gerar mudanças sociais. Tamanha força, com o
maior dos potenciais subversivos, não tem lugar dentro do sistema. Ela
precisa ser eliminada.[8]
No entanto, ainda que Bane não tenha o fascínio do Coringa de Heath
Ledger, há uma característica que o distingue desse último: o amor
incondicional, a mesma fonte da sua dureza. Em uma cena curta mas
comovente, vemos como, em um ato de amor no meio do sofrimento terrível,
Bane salvou a garota Talia sem se importar com as consequências e
pagando um preço terrível por isso (foi espancado quase até a morte por
defendê-la). Karthick tem toda razão ao situar esse acontecimento dentro
da longa tradição, de Cristo a Che Guevara, que exalta a violência como
uma “obra do amor”, como nas famosas palavras do diário de Che Guevara:
“Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro
revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor. É impossível
pensar em um revolucionário autêntico sem essa qualidade”[9].
O que encontramos aqui nem é tanto a “cristificação de Che”, mas sim
uma “cheização do próprio Cristo” – o Cristo cujas palavras
“escandalosas” de Lucas (“se alguém vem a mim e não odeia seu próprio
pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode
ser meu discípulo” [Lc 14:26]) apontam exatamente na mesma direção que a
famosa citação de Che: “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura”. A
afirmação de que “o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte
sentimento do amor” deveria ser interpretada juntamente com a declaração
muito mais “problemática” de Guevara sobre os revolucionários como
“máquinas de matar”:
O ódio é um elemento da luta; o ódio impiedoso do inimigo que nos
ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em
eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar. Assim devem
ser nossos soldados; um povo sem ódio não derrota um inimigo brutal.
Ou, parafraseando Kant e Robespierre mais uma vez: o amor sem
crueldade é impotente; a crueldade sem amor é cega, paixão efêmera que
perde todo seu vigor. Guevara está parafraseando as declarações de
Cristo sobre a unidade do amor e da espada – em ambos os casos, o
paradoxo subjacente consiste nisto: o que torna o amor angelical, o que o
eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética, é essa mesma
crueldade, o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima
e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão
incondicional. É por isso que, voltando a O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o único amor autêntico no filme é o de Bane, o “amor do terrorista”, em nítido contraste a Batman.
Nesse mesmo viés, a figura de Ra’s, pai de Talia, merece um exame
mais cuidadoso. Ra’s é uma mistura de características árabes e
orientais, um agente do virtuoso terror lutando para contrabalancear a
corrompida civilização ocidental. O personagem é interpretado por Liam
Neeson, ator cuja persona na tela geralmente irradia uma nobre bondade e
sabedoria (ele faz o papel de Zeus em Fúria de Titãs), e que também representa Qui-Gon Jinn em A Ameaça Fantasma, primeiro episódio da série Star Wars.
Qui-Gon é um cavaleiro Jedi, mentor de Obi-Wan Kenobi, bem como o
descobridor de Anakin Skywalker, acreditando que Anakin é O Escolhido
que restituirá o equilíbrio do universo, ignorando os alertas de Yoda
sobre a natureza instável de Anakin; no final de A Ameaça Fantasma, Qui-Gon é morto por Darth Maul[10].
Na trilogia Batman, Ra’s também é professor do jovem Wayne: em Batman Begins,
ele encontra Wayne em uma prisão chinesa; apresentando-se como Henri
Ducard, ele oferece um “caminho” para o garoto. Depois que Wayne é
libertado, ele segue até a fortaleza da Liga das Sombras, onde Ra’s está
esperando, embora se apresente como servo de outro homem chamado Ra’s
Al Ghul. Depois de um longo e doloroso treinamento, Ra’s explica que
Bruce deve fazer o que for preciso para combater o mal, embora revele
que eles treinaram Bruce para liderar a Liga com o intuito de destruir
Gotham City, que eles acreditam ter se tornado irremediavelmente
corrupta. Portanto, Ra’s não é a simples encarnação do Mal: ele
representa a combinação de virtude e terror, a disciplina igualitária
que combate um império corrupto, e assim pertence ao fio condutor (na
ficção recente) que vai de Paul Atreides em Duna até Leônidas em300 de Esparta. E é crucial que Wayne seja seu discípulo: Wayne foi formado como Batman por ele.
Duas críticas do senso-comum se apresentam aqui. A primeira é de que houveviolência
e matanças monstruosas nas revoluções reais, desde o estalinismo ao
Khmer Vermelho, por isso está claro que o filme não está apenas engajado
na imaginação revolucionária. A segunda, oposta, é esta: o atual
movimento Occupy Wall Street não foi violento, seu objetivo
definitivamente não era um novo reino do terror; na medida em que se
espera que a revolta de Bane extrapole a tendência imanente do movimento
OWS, o filme, portanto, deturpa de maneira absurda seus objetivos e
estratégias. Os atuais protestos antiglobalistas são o exato oposto do
terror brutal de Bane: este representa a imagem espelhada do terror
estatal, uma seita fundamentalista e homicida dominada e controlada pelo
terror, e não a sua superação por meio da auto-organização popular… As
duas críticas compartilham a rejeição da figura de Bane. A resposta a
essas duas críticas é múltipla.
Primeiro, devemos esclarecer o atual escopo da violência – a melhor
resposta para a afirmação de que a reação violenta da multidão à
opressão é pior que a opressão original foi dada por Mark Twain no seu Um ianque na corte do rei Artur:
“Houve dois ‘Reinos do Terror’, se bem nos lembramos; um forjado na
incandescente paixão, outro no desumano sangue frio. [...] Mas todos os
nossos temores, que os tenhamos pelo menor terror, o momentâneo, por
assim dizer; pois o que é o terror da morte súbita pelo machado se
comparado à morte em toda uma vida de fome, frio, insulto, crueldade e
desilusão? O cemitério de qualquer cidade pode bem conter os caixões
cheios desse breve terror, que todos aprendemos com afinco a temer e
lamentar; mas a França inteira mal conteria os caixões cheios daquele
outro terror, mais antigo e verdadeiro, o terror de amargura e
atrocidade indizíveis, que nenhum de nós aprendeu a encarar em toda sua
amplitude ou desprezo que merece”.
Depois, deveríamos desmistificar o problema da violência, rejeitando
afirmações simplistas de que o comunismo do século XX agiu com uma
violência homicida excessiva demais, e de que deveríamos tomar cuidado
para não cair mais uma vez nessa armadilha. Com efeito, trata-se de uma
terrível verdade – mas esse foco voltado diretamente para a violência
obscurece uma questão basilar: o que houve de errado no projeto
comunista do século XX como tal, qual foi o ponto fraco imanente desse
projeto que impulsionou o comunismo a recorrer (não só) aos comunistas
no poder para a violência irrestrita? Em outras palavras, não basta
dizer que os comunistas “negligenciaram o problema da violência”: foi um
aspecto sócio-político mais profundo que os impulsionou à violência. (O
mesmo se aplica à ideia de que os comunistas “negligenciaram a
democracia”: seu projeto geral de transformação social impôs sobre eles
esse “negligenciar”.) Portanto, não é apenas o filme de Nolan que foi
incapaz de imaginar o poder autêntico do povo – os próprios movimentos
“reais” de emancipação radical também não o fizeram e continuam presos
nas coordenadas da antiga sociedade, e, por essa razão, muitas vezes o
efetivo “poder do povo” foi esse horror violento.
E, por último, mas não menos importante, é muito simples dizer que não há potencial violento no movimento OWS e similares – há sim uma
violência em jogo em todo processo emancipatório autêntico: o problema
com o filme é que ele traduziu essa violência de uma maneira errada em
terror homicida. Qual é, então, a sublime violência em relação à qual
até mesmo o mais brutal assassinato é um ato de fraqueza? Façamos uma
digressão em Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, que conta a
história dos estranhos eventos na capital sem nome de um país
democrático não identificado. Quando a manhã do dia das eleições é
arruinada por chuvas torrenciais, a quantidade de eleitores presentes é
extremamente baixa, mas o tempo melhora no meio da tarde e a população
segue em massa para as seções eleitorais. No entanto, o alívio do
governo logo acaba quando a contagem de votos revela que 70% das cédulas
na capital foram deixados em branco. Frustrado por esse aparente lapso
civil, o governo dá aos cidadãos a chance de refazer o fato uma semana
depois, em mais um dia de eleição. O resultado é pior: agora 83% dos
votos foram brancos. Os dois principais partidos políticos – o
governante partido da direita (p.d.d.) e seu principal adversário, o
partido do meio (p.d.m.) – entram em pânico, enquanto o infeliz e
marginalizado partido da esquerda (p.d.e.) apresenta uma análise
afirmando que os votos brancos são, essencialmente, um voto por sua
agenda progressiva. Sem saber como responder a um protesto benigno, mas
certo de que existe uma conspiração antidemocrática, o governo
rapidamente rotula o movimento de “terrorismo puro e duro” e declara
estado de emergência, permitindo a suspensão de todas as garantias
constitucionais e adotando uma série de medidas cada vez mais drásticas:
os cidadãos são apanhados aleatoriamente e desaparecem em
interrogatórios secretos, a polícia e a sede do governo saem da capital,
proibindo a entrada e a saída da cidade e, por fim, fabricando seu
próprio líder terrorista. A cidade toda continua funcionando quase
normalmente, as pessoas se esquivam de todas as ofensivas do governo com
uma harmonia inexplicável e com um verdadeiro nível gandhiano de
resistência não violenta… isso, a abstenção dos eleitores, é um
exemplo de “violência divina” verdadeiramente radical que desperta
reações de pânico brutal nos detentores do poder.
Voltando a Nolan, a trilogia dos filmes do Batman, portanto, segue uma lógica imanente. Em Batman Begins, o herói continua dentro dos limites de uma ordem liberal: o sistema pode ser defendido com métodos moralmente aceitáveis. O Cavaleiro das Trevas é de fato uma nova versão de dois clássicos de faroeste de John Ford (Sangue de Heróis e O Homem Que Matou o Facínora)
que retratam como, para civilizar o ocidente selvagem, é preciso
“publicar a lenda” e ignorar a verdade – em suma, como nossa civilização
tem de se fundamentar em uma Mentira: é preciso quebrar as regras para
defender o sistema. Ou, dito de outra forma, em Batman Begins, o
herói é simplesmente uma figura clássica do vigilante urbano que pune os
criminosos naquilo que a polícia não pode; o problema é que a polícia,
órgão responsável pela imposição das leis, relaciona-se de maneira
ambígua à ajuda de Batman: enquanto admite sua eficácia, ela também
considera Batman uma ameaça ao seu monopólio do poder e uma testemunha
da sua ineficácia. No entanto, a transgressão de Batman aqui é puramente
formal, consiste em agir em nome da lei sem a legitimação para fazê-lo:
nos seus atos, ele nunca viola a lei. O Cavaleiro das Trevas muda
essas coordenadas: o verdadeiro rival de Batman não é o Coringa, seu
oponente, mas Harvey Dent, o “cavaleiro branco”, o novo e agressivo
promotor público, um tipo de vigilante oficial cuja batalha fanática
contra o crime o conduz ao assassinato de pessoas inocentes e o destrói.
É como se Dent fosse a resposta à ordem legal da ameaça de Batman:
contra a vigilante luta de Batman, o sistema gera seu próprio excesso
ilegal, seu próprio vigilante, muito mais violento que Batman, violando
diretamente a lei. Desse modo, há uma justiça poética no fato de que,
quando Bruce planeja revelar ao público sua identidade como Batman, Dent
o interrompe e se apresenta como Batman – ele é “mais Batman que
o próprio Batman”, efetivando a tentação à qual Batman ainda era capaz
de resistir. Então quando, no final do filme, Batman assume os crimes
cometidos por Dent para salvar a reputação do herói popular que
incorpora a esperança para o povo comum, seu ato modesto tem uma ponta
de verdade: Batman, de certa forma, devolve o favor a Dent. Seu ato é um
gesto de troca simbólica: primeiro Dent toma para si a identidade de
Batman, e depois Wayne – o Batman verdadeiro – toma para si os crimes de
Dent.
Por fim, O Cavaleiro das Trevas Ressurge ultrapassa ainda mais
os limites: Bane não seria Dent levado ao extremo, à sua autonegação?
Dent que chega à conclusão de que o sistema é injusto, de modo que, para
combater a injustiça com eficácia, é preciso atacar diretamente o
sistema e destruí-lo? E, como parte da mesma atitude, Dent que perde as
últimas inibições e está pronto para usar toda sua brutalidade assassina
para atingir esse objetivo? O advento dessa figura muda a constelação
inteira: para todos os participantes, inclusive Batman, a moralidade é
relativizada, torna-se uma questão de conveniência, algo determinado
pelas circunstâncias: é uma guerra de classes aberta, tudo é permitido
para defender o sistema quando estamos lidando não só com gângsteres
malucos, mas com uma revolta popular.
Será, então, que isso é tudo? O filme deveria ser categoricamente
rejeitado por quem se envolve em lutas emancipatórias radicais? As
coisas são mais ambíguas, e é preciso interpretar o filme da maneira que
se interpreta um poema político chinês: as ausências e as presenças
surpreendentes também contam. Recordemos a antiga história francesa
sobre uma esposa que reclama do melhor amigo do marido, dizendo que o
amigo tem se insinuado sexualmente para ela: leva algum tempo para que o
amigo surpreso entenda a mensagem – de uma maneira invertida, ela o
está incitando a seduzi-la… É como o inconsciente freudiano que não
conhece a negação: o que importa não é um juízo negativo sobre algo, mas
o simples fato de que esse algo seja mencionado – em O Cavaleiro das Trevas Ressurge,
o poder do povo ESTÁ AQUI, encenado como um Evento, em um passo
fundamental dado a partir dos oponentes habituais de Batman (criminosos
megacapitalistas, gângsteres e terroristas).
Temos aqui a primeira pista – a perspectiva de que o movimento OWS
tome o poder e estabeleça a democracia do povo em Manhattan é nítida e
completamente tão absurda e irreal que não podemos deixar de fazer a
seguinte pergunta: POR QUE UM IMPORTANTE BLOCKBUSTER DE HOLLYWOOD SONHA
COM ISSO, POR QUE EVOCA ESSE ESPECTRO? Por que sequer sonhar com o OWS
culminando em uma violenta tomada de poder? A resposta óbvia (manchar o
OWS com acusações de que ele guarda um potencial terrorista totalitário)
não é o bastante para explicar a estranha atração exercida pela
perspectiva do “poder do povo”. Não admira que o funcionamento
apropriado desse poder continue branco, ausente: nenhum detalhe é dado
sobre como funciona esse poder do povo, sobre o que as pessoas
mobilizadas estão fazendo (é preciso lembrar que Bane diz que as pessoas
podem fazer o que quiserem – ele não impõe sobre elas a sua própria
ordem).
É por isso que a crítica externa do filme (“sua retratação do reino
do OWS é uma caricatura ridícula”) não basta – a crítica tem de ser
imanente, tem de situar dentro do próprio filme uma multiplicidade de
sinais que aponte para o Evento autêntico. (Recordemos, por exemplo, que
Bane não é apenas um terrorista brutal, mas sim uma pessoa de profundo
amor e sacrifício.) Em suma, a ideologia pura não é possível, a
autenticidade de Bane TEM de deixar rastros na tecitura do filme. É por isso que
o filme merece uma leitura mais íntima: o Evento – a “república do povo
de Gotham City”, a ditadura do proletariado sobre Manhattan – é imanente ao filme, é o seu centro ausente.
[1] Tyler O’Neil, “Dark Knight and Occupy Wall Street: The Humble Rise”,Hillsdale Natural Law Review, 21 de julho de 2012.
[2] Karthick RM, “The Dark Knight Rises a ‘Fascist’?”, Society and Culture, 21 de julho de 2012.
[3] Tyler O’Neil, cit.
[4] Christopher Nolan, entrevista na Entertainment 1216 (julho de 2012), p. 34.
[5] Entrevista de Christopher e Jonathan Nolan ao Buzzine Film.
[6] Karthick, cit.
[7] Forrest Whitman, “The Dickensian Aspects of The Dark Knight Rises”, 21 de julho de 2012.
[8] Karthick, cit.
[8] Karthick, cit.
[9] Citado em Jon Lee Anderton, Che Guevara: A Revolutionary Life, New York: Grove 1997, p. 636-637.
[10] Notemos
a ironia do fato de que o filho de Neeson é um xiita devoto, e que o
próprio Neeson às vezes fala sobre a sua futura conversão ao islamismo.
Fonte: http://revistaforum.com.br/
Assinar:
Postagens (Atom)